14 novembro 2010

Inovação e´ peça fundamental

"A inovação é chave em todo o mundo. É uma peça fundamental para que as empresas cresçam rapidamente. Pesquisas indicam que as empresas que inovam pagam melhores salários, dão melhores condições ao funcionário, valorizam mais o tempo de trabalho e a experiência de seus trabalhadores".

Essa é uma das principais conclusões do professor Glauco Arbix. Em entrevista à IHU On-Line, realizada por telefone, Arbix analisa a relação entre o imitar e o inovar e a noção de propriedade intelectual na era da economia do conhecimento. Para ele, quando se "copia" uma ideia adequando-a a uma nova realidade e necessidade há um processo de inovação. "Não estou falando da cópia vulgar, a cópia significa se basear num processo que já está dado e faz acontecer de tal forma que algo de novo surge", explica.

O filósofo Glauco Arbix é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo e pós-doutor pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts e pela London School of Economics and Political Science. Atualmente, é professor na USP.

Confira a entrevista.
IHU On-Line – Porque a ideia do “imitar e inovar” é interessante para ao Brasil?

Glauco Arbix – A inovação é chave em todo o mundo. É uma peça fundamental para que as empresas cresçam rapidamente. Pesquisas indicam que as empresas que inovam pagam melhores salários, dão melhores condições ao funcionário, valorizam mais o tempo de trabalho e a experiência de seus trabalhadores. As empresas inovadoras contratam funcionários com maior tempo de escolaridade e, do ponto de vista da própria economia, elas são as mais dinâmicas, as mais aptas e as que, provavelmente, vão se transformar, ou podem se transformar, em exportadoras.

Quando trabalhamos no Brasil com inovação se percebe que, muitas vezes tanto os empresários, quanto os órgãos públicos ou as Universidades, a palavra em si tem diferentes sentidos. Em todo país é muito forte a tradição que vê a inovação como uma atividade de alta tecnologia, que está identificada com as áreas da alta engenharia, com avanços tecnológicos que marcam época, com habilidades que dependem de cientistas e laboratórios. No entanto, o Brasil tem mais de dez milhões de empresas, e a maioria delas não tem laboratório, engenheiros, mestrandos ou doutorandos etc.

Eu já assisti palestras que falavam que há empresas nos Estados Unidos que investem dois bilhões de dólares por ano em seus laboratórios, departamentos de pesquisa e desenvolvimento. Isso nós não fizemos no Brasil. Qual empresa daqui pode, investir 1 ou 2 bilhões de dólares? São raras as empresas do mundo que fazem isso. Então, a minha preocupação, assim como a de todos os pesquisadores aqui do observatório da inovação da USP, é exatamente mostrar que há níveis diferenciados de inovação. Temos inovações muito radicais, que é aquela que marca época, como a Internet, a Televisão, o Rádio. Mas, ao mesmo tempo, temos inovações tão ou mais revolucionárias que não utilizaram praticamente nada de tecnologia, por exemplo, no começo do século passado um proprietário de uma empresa de automóveis, chamado Henry Ford, desenvolveu um sistema de montagem dos automóveis que revolucionou o mundo da indústria, que não foi a mesma depois dele.
Veja, ele não inventou a porca, a ruela, a correia, a base em cima da qual as peças eram levadas até os trabalhadores. Ele juntou tudo isso e teve a ideia de aproveitar melhor a capacidade de trabalho de seus funcionários, utilizando uma ideia muito antiga. E foi só isso que ele fez? Não, ele fez isso e aumentou os salários de seus funcionários e, com isso, praticamente triplicou o valor de mercado deles. Assim, a indústria nunca mais foi a mesma, não somente as empresas de automóveis, mas tudo que é industrial passou a utilizar das formas que o próprio Ford inventou.

IHU On-Line - E como podemos trazer esse exemplo para hoje?

Glauco Arbix - Um exemplo da era informatizada: uma empresa como a Apple, que é uma das empresas mais inovadoras do mundo, fez o Ipod e o NanoPod que foram um sucesso estrondoso, que é objeto de desejo de uma parcela gigantesca da juventude, todo mundo quer um aparelho desses, só que tem um problema: A Apple Steve Jobs e seu Iphone não foi a primeira, não foi a segunda a fazer esse tipo de produto. Ela entrou bem depois no mercado e não foi a inventora do MP3, nem do aparelho que lê arquivos MP3. Eu acompanhei uma palestra do presidente da Apple, Steve Jobs, uma personalidade muito forte e polêmica, e o que vou repetir eu escutei dele:

“Vocês pensam que a Apple inventou esse display do Ipod? Não! Isso foi desenvolvido, em grande parte, pela Secretaria da Energia dos Estados Unidos. Vocês pensam que a Apple inventou a bateria de lítio, que dá uma durabilidade de capacidade de desenvolver as músicas? Isso não é verdade. Quem desenvolveu isso foi o Ministério da Defesa. Então, o que a Apple fez? Ela combinou um conhecimento já dado de uma forma inteligente”. Essa última frase é muito marcante, porque ela é bastante elucidativa para o Brasil. Enquanto ficamos sonhando com essa ou aquela invenção, deixamos de incentivar milhares de avanços e inovações. Enganam-se aqueles que acham que desenvolver pequenas mudanças não é uma atividade nobre.

Vou radicalizar no exemplo: uma inovação menor, vamos chamar assim, é aquela que não é de ruptura para o mundo, é quando uma empresa brasileira consegue “tropicalizar” um produto ou uma ideia que já existe fora. Ela não inventou nada, porém adaptou, mostrou, acomodou, fez adequações às realidades brasileiras, arriscou, fez diferente. A empresa está copiando? Praticamente, mas copiar é fácil? Nem um pouco!

Poucas áreas da economia brasileira trabalham na fronteira do conhecimento. Nós somos um país que ainda tem um longo caminho a percorrer no campo das ciências, da tecnologia, dos sistemas de produção. Agora, se nós acharmos que tudo o que precisamos de inovação só vai ser dirigido e orientado por um grupo seleto e restrito de empresas, estaremos julgando a esmagadora maioria das empresas do país que querem e se dispõem a evoluir. Essa discussão sobre inovação e imitação tem um impacto muito forte para a universidade brasileira, para o conjunto das empresas, associações de empresários e, fundamentalmente, para as políticas públicas.

IHU On-Line – Qual é a contribuição das universidades nesse sentido?

Glauco Arbix – As universidades brasileiras vêm de uma tradição muito forte na área da pesquisa, e temos pesquisas de qualidade no país. Mas, ao mesmo tempo, podemos e devemos avançar muito mais no que diz respeito ao relacionamento e sintonia com os esforços que o país vem fazendo para se desenvolver. Não tem nada a ver com quebrar a ideia da autonomia. A universidade tem que ser autônoma, o conhecimento tem que se basear na curiosidade, na intuição e disposição do pesquisador. Tudo isso é chave para descobrirmos novos caminhos e gerar novos conhecimentos. Mas isso em absoluto está em contradição com o esforço para trabalhar em conjunto com os agentes econômicos públicos e privados para que eles se capacitem mais e consigam absorver mais o conhecimento para, exatamente, produzir mais e melhor. O grande beneficiário disso será a população. A universidade precisa entrar em sintonia com a economia, sem abandonar a sua pauta de pesquisa e o seu ritmo.

IHU On-Line – A partir dessa ideia de “imitar e inovar”, como o senhor situaria a propriedade intelectual?

Glauco Arbix – A propriedade intelectual é um regime que permite você preservar, por um determinado período, um certo monopólio de uma ideia brilhante que se teve. A ideia básica daquelas que estão ligadas à propriedade intelectual é a seguinte: eu invisto e, por um período, tenho que me beneficiar e obter vantagens a partir do reconhecimento daquilo que produzi. Quando se discute a propriedade intelectual, o que está em jogo é que a partir de um certo momento quem apresentou um produto ou um processo ou um serviço e conseguiu trazer a luz um bem com características novas para o mercado, economia e para a vida está conferindo uma série de vantagens por um espaço de tempo. Depois disso, o monopólio passa a ser de domínio público. Quando falamos num processo de imitação e inovação, devemos entender que ao imitar, podemos simultaneamente inovar, fazer diferente. Não estou falando da cópia vulgar, a cópia significa se basear num processo que já está dado e faz acontecer de tal forma que algo de novo surge.

IHU On-Line – O senhor acha que a economia do conhecimento pode gerar uma nova divisão do trabalho?

Glauco Arbix – Aquilo que é chamado de economia do conhecimento pode ter várias interpretações. Tomando uma dela, isso é, a ideia de que estamos caminhando para uma sociedade em que o conhecimento cada vez faz mais parte dos processos de produção e dos serviços, é evidente que vamos ter uma relação completamente diferente no mundo do trabalho e no lugar em que os países e economias ocupam no conceito das relações. Se não avançarmos da imitação para a inovação, não elevarmos nosso padrão de qualidade educacional da população, vamos estar muito mal nesse novo momento. Esse novo momento significa que os países que avançaram mais vão ocupar um lugar completamente distinto dos outros. Com isso, teremos uma nova divisão do trabalho. Estaremos, portanto, mais uma vez jogados para a periferia.

Como não é isso que está ocorrendo, os países em desenvolvimento tem se expressado de uma maneira distinta, nós estamos tendo a possibilidade de quebrar essa ideia de periferia que sempre nos marcou e, realmente, abrir uma era nova. Nesse sentido, os trabalhadores mais qualificados vão ter mais possibilidade de ocupar melhor o cenário do mundo da economia do conhecimento. Desse ponto de vista, é possível que tenhamos um reordenamento, interno e externo, dos países, das economias, das pessoas, dos grupos novos sociais que emergem para ocupar um lugar diferente e melhor.

Fonte: Envolverde/IHU On-Line
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