15 dezembro 2011

Regando as plantas!

Artigo de Alex Garcia

Mais um ano que passa. Bons para alguns, ruins para outros. Para mim foi um ano repleto de boas experiências, e das dolorosas, e aprendi a tirar delas profundos ensinamentos e reflexivos comentários.

Este ano acompanhei repetitivas atitudes de "Regando as Plantas".  Eu não estou louco! O que tem a ver "Regar Plantas" com nossa coluna? Tudo!

Atitudes deram-me a clara impressão de que muitas pessoas com Deficiência (PcD) são meras plantas e que pessoas e grupos vão regando-as ao passar do tempo, de acordo com seu interesse, e é claro manter as PcDs vivas, mas estáticas, como uma planta.

Foi realizada no Brasil a Conferência DBI - Surdocegueira Internacional e eu como todos sabem sou um Surdocego, mas passei muitos dias respondendo milhares de mensagens de o porquê eu não estava nesta "importante" conferência.

Minha resposta foi sempre à mesma: Não fui convidado!

 Muitas pessoas da organização tentaram me convencer de várias hipóteses, mas, a que está claro é que não fui convidado porque não tenho o perfil de um surdocego subalterno.

 Tenho soberania e este perfil não serve aos organizadores.

Esta conferência foi uma verdadeira "maquiagem" sobre a realidade dos surdocegos brasileiros.

Desde 1962, ano em que se iniciou a educação de surdocegos no Brasil, somos subalternizados em nossos valores e desenvolvimentos. 

Pessoas, grupos e organizações internacionais, que com a força do dólar e do euro, produziram a mais pura ganância, o mais real egoísmo, a incontrolável tendência ao poder e ao controle, e a temida subalternidade.

 Isso afeta os surdocegos é claro, mas estranhamente não afeta muitos que não são surdocegos. Muitos até medalhas receberam nesta "importante" conferência. Medalhas forjadas com o sangue de milhares de surdocegos que padeceram sem ter a mínima oportunidade.

E o mais inacreditável foi o tema da conferência: "Inclusão para uma vida de oportunidades". É mole? ”Estão “Regando as Plantas” há 50 anos”.

Nesta conferência teve uma apresentação de um surdocego americano que aborda as tecnologias que apóiam surdocegos.  Ele é muito habilidoso, mas, o que não conseguem me explicar é que este mesmo americano esteve no Brasil há alguns anos atrás desenvolvendo a mesma apresentação. Daquela vez até agora nenhum plano foi elaborado para que de fato os surdocegos possam ter as tecnologias. Pois bem.

Fico a reflexionar com meus botões: Até quando vem e vai o americano? Os "surdocegos plantas" de tempos em tempos são regados, vocês me entendem?

Quantas vezes mais pessoas e grupos do Brasil e organizações internacionais vão usar o "regador americano" para subalternizar e brincar com as emoções dos surdocegos brasileiros? Fica a dúvida!

Todos sabem que no Brasil tudo vira moda. Tenho impressão que a Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência já está na moda. Este ano, foram tantas as vezes que acompanhei os dizeres: "O trabalho à luz da Convenção", "A Educação à luz da Convenção", entre outras que três reflexões nasceram em mim: O bom de tanta "luz" para isso e "luz" para aquilo é que as Pcd do Brasil já descobriram que estamos nas trevas.

Que as PcD não sabem de fato o que e como fazer valer a Convenção e que tem muita gente usando a Convenção com "Regador de Plantas".. Puxa vida!

Convenhamos, as PcD, por medo ou por receberem "conselhos dos regadores de plantas",  não vão nem na promotoria de sua cidade reivindicar seus direitos que são constantemente lesados, será que estão entendendo a Convenção ou estão todos "falando" por modismo?

As Pcd apenas vão compreender e usar bem a Convenção quando construírem uma soberana identidade, caso contrário o "modismo" toma conta.

Esta mesma falta de identidade das PcD  que quase fizeram minha moral entrar em colapso de tantas vezes que observei a afirmação: "Eu represento as PcD". Este "Eu" raramente é uma PcD. Nossa!

É inacreditável como as PcD do Brasil aceitam, ou são convencidas a aceitar, e parecem gostar de serem "representadas". Chegará o dia em que as próprias PcD irão se auto-representar?

Mas talvez este dia esteja chegando com o lançamento do Plano Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência, batizado de "Viver sem Limites". Grande lance. Bilhões em investimentos. Filhas, PcD, de parlamentares na foto.

Até a Presidente Dilma derrubou lágrimas.  Mas para ofuscar a festa ocorreu o sepultamento do Decreto 6.571/08, que previa a Escola Inclusiva.

E agora tchê? Será que os bilhões vão servir de fato para "Viver sem Limites" ou estes vão encher ainda mais os "Regadores de Plantas"? Tantas e tantas situações este ano que me deixam P... da vida.

As vezes tenho vontade de fugir como destacou a filósofa russo-americana Ayn Rand, judia, fugitiva da revolução russa, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920, mostrando uma  visão com conhecimento de causa.

Parece até que ela viveu sob governos bem conhecidos de nós brasileiros, não é mesmo?

"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores;  quando perceber que muitos ficam ricos, pelo suborno e por influência, mais do que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você;  quando perceber que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em auto - sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada, fuja".

Mas como o Brasil é país de todos os brasileiros e brasileiras e eu não sou de fugir, como cidadão peço, amparado nos preceitos constitucionais, que a presidenta Dilma reforme o Decreto 7.611/11,  para que fique em Concordância com a Convenção e que garanta o direito inalienável a educação, com todos os recursos necessários, para que as pessoas surdocegas não sejam ainda mais discriminadas e, um dia, possam vir a exercer a cidadania em igualdade de condições. 


 * Alex Garcia. Pessoa Surdocega. Presidente da Agapasm
Escritor. Especialista em Educação Especial. Vencedor II Prêmio Sentidos. 
Rotariano Honorário - Rotary Club de São Luiz Gonzaga-RS. 
Líder Internacional para o Emprego de Pessoas com Deficiência Professional Program on International Leadership, Employment, and Disability (I-LEAD) Mobility International USA / MIUSA. Membro da World Federation of Deafblind - WFDB. 
Membro da Aliança Brasileira de Genética.
 Colunista da Revista REAÇÃO e do Portal Planeta Educação. 
Consultor da Rede Educativa Mundial - REDEM. 
Consultor Instituto Inclusão Brasil.


Esta reflexão está publicada na Revista Reação do mês de dezembro. na coluna de Alex Garcia, "Espaço Aberto"
 
Postar um comentário