06 maio 2011

Cultura e Sustentabilidade

Sem uma noção cultural, o desenvolvimento se descola da vida cotidiana das pessoas.

Estamos num momento civilizatório, onde a sustentabilidade ganha centralidade jamais vista, em virtude da insustentabilidade planetária e de seus impactos sobre os modos de vida contemporâneos.
O debate cultural necessita ganhar profundidade em relação a esses desafios. Se os anos 1990 significaram o início dessa discussão – ainda centrada na importância da cultura, sua democratização de oportunidades, participação, cidadania e direitos –, hoje caminhamos para visões e intervenções que levam em conta uma noção de totalidade da cultura, tendo como horizonte a formação de uma cultura sustentável e de parâmetros para a cultura da sustentabilidade.

Podemos afirmar que os anos 1990 estavam para a democratização da cultura assim como os anos 2000 estão para a sustentabilidade, isto é, a cultura como direito à vida, modos de vida, transversal, gerando novos conhecimentos e ações. A ação cultural local ganha novo sentido na interação com o projeto do desenvolvimento sustentável.

Sem uma noção cultural, o desenvolvimento descola-se da vida cotidiana das pessoas e comunidades ou a atrai para lugares onde sua vida e tradições não têm lugar. Houve ao longo do tempo uma distância entre desenvolvimento e cultura e um dos grandes desafios contemporâneos é buscar linhas de força convergentes para que o desenvolvimento das sociedades seja também o das pessoas e de toda a comunidade dos seres vivos. Necessitamos construir metodologias, políticas, teorias que aproximem esses campos tão díspares, terreno propício dos processos de diversidades e identidades, pois a cultura deve ser entendida de forma abrangente e lugar por excelência do desenvolvimento, que dá essência ao desenvolvimento e pode ser o sustentáculo do desenvolvimento sustentável. Uma cultura sustentável pode contribuir para curar o planeta e a localidade. Segundo a Tradição Nativa Americana, a cura significa aquilo que pode ajudar a pessoa a se sentir mais integrada, harmonizada com a natureza e a vida (Sams, 1990).


O local e seus significados
Os processos globais, a formação dos Estados nacionais e os modos de vida contemporâneos descaracterizaram de certa forma o local, ou muitas vezes, desacreditaram a localidade. Com a emergência do paradigma ecológico, o local volta a bradar seu grito de existência, afirmando que é lá que a cultura se constitui. Em seu movimento constante, garante, ressignifica, potencializa experiências e imaginários. Em torno do local circulam narrativas, experiências significativas, enfim, as “aldeias” passam a simbolizar alguma coisa a mais do que a nostalgia dos tempos idos, ou de um localismo essencialista, coisa que andou esquecida ou perdida entre os ventos globais. É interessante relembrar quando o geógrafo Milton Santos afirma que o local é a essência e o global a aparência. Como veremos – nem tanto ao céu nem tanto à terra –, não podemos afirmar isso categoricamente porque as decisões globais também são mais que aparência e passam quase sempre por outros canais que não o território ou a localidade. No mundo das tecnologias de informação e comunicação, da publicidade, do branding e das marcas, que não apenas instrumentalizam a economia, mas criam cultura, os processos, mesmo locais, são mais complexos que a antinomia local-global.

Em verdade a expressão desenvolvimento é limitada e problemática, pois apartou a atividade econômica de outras dimensões da vida a ponto de só essa garantir o bem-estar. Estabeleceu uma noção de riqueza como apropriação de bens materiais, e a natureza tornou-se um mero recurso a ser utilizado (Coll, 2006). Por outro lado, a ideia de desenvolvimento foi fartamente manipulada pelas elites, civis ou militares, industriais ou agrárias, desenvolvimentistas ou populistas, direitistas ou esquerdistas, que sempre envolveram as populações ou as tomaram como “público-alvo” – e alvo mesmo – de políticas que nem sempre resultavam em melhoria para o país ou região, mas para a redefinição de processos da formação econômica, de infraestrutura industrial ou mesmo criação de condições para processos hegemônicos ou de dominação. Se quisermos utilizar o termo desenvolvimento, ele é mais apropriado a adjetivações tais como desenvolvimento humano ou sustentável, ou mesmo desenvolvimento saudável, que podem expressar melhor, embora não de forma precisa, não meros processos de crescimento, mas a qualidade de vida inserida neles. Considero de maior precisão o “desenvolvimento dos seres humanos” ou mesmo o “desenvolvimento da qualidade de ser” (Fonteles, 2001). O fato é que não se trata de mera expressão linguística: hoje temos necessidade premente de refundar a linguagem e as metáforas para que possam expressar melhor os conteúdos das propostas de mudança. É interessante notar que as “ciências da mudança” estão repletas de palavras e expressões bélicas como estratégias e táticas, trincheiras, avanços e recuos, mortes e mortos, tiros, bunkers, derrotas e vitórias, lutas e guerras, passos adiante e atrás, cercos e conquistas, arsenais e tiros – heranças de experiências revolucionárias ou de resistência. Neste sentido, há que mudar a linguagem para narrar caminhos de convivência e cultura de paz, pois a palavra é fundadora do mundo, anuncia significados, símbolos, portanto funda e, ironicamente, “afunda” culturas. A expressão local não deve ser entendida em oposição ao global – pois as realidades são cada vez mais glocais (local e global) – mas chama a atenção para dinâmicas vivenciais que desenham o rosto do dia a dia das pessoas, do território de vida, da ação, da mudança e da imaginação.



No local está a essência?Quando se fala em local, geralmente vem a associação com desenvolvimento econômico, uma noção antiga que contém em seu centro, quase exclusivamente, a questão da geração de renda local, muitas vezes ancorada numa visão homogênea de cidade, com harmonia entre seus atores sociais e culturais, com discurso único da localidade: enfim, um certo “localismo” em oposição ao que acontece no mundo da sociedade perpassada por grandes conflitos.

Mais recentemente, esses discursos têm sido associados a um certo bem-estar e qualidade de vida material, com alguma distribuição de renda. A cidadania e a governança na localidade também são tratadas cada vez com maior ênfase. Do ponto de vista político há aqueles que defendem e os que questionam a visão que compreende o território ou a localidade como lugar do contrapoder à lógica da desigualdade, como paradigma alternativo à sociedade conflituosa e pervertida; lugar de contra-hegemonia e de resistência aos caminhos do movimento global através de ações cidadãs, redistribuição de renda e poder, democratização, fortalecimento de atores e da sociedade civil etc.

Sem dúvida, trata-se de um tema muito controverso do ponto de vista tanto metodológico como conceitual, e talvez não possamos ainda avançar significativamente neste campo de análise. Está cada vez mais claro que não se trata de um novo paradigma emergente, pois o local não dá respostas completas para os complexos processos socioculturais contemporâneos. Mas é fato que a localidade é um espaço privilegiado da ação e da experimentação, seja na rua, nos espaços públicos, na região ou no município. Na verdade o local é um pouco aquilo que fazemos dele. Não é dado de antemão, é construído historicamente pelas experiências individual e social dos seus habitantes, seja num prisma mais político de governança e participação, ou no plano da criatividade artística, cultural e espiritual ou ainda das reelaborações de heranças culturais. É o nosso olhar que também o constrói. Assim, temos experiências humanas de sociabilidade, de revelação da diversidade, de diálogos interculturais, de construção cidadã, de exercício da autonomia, de outras relações com a natureza e com o outro, território de fabulações e imaginação.

Podemos, portanto, considerar o local como lugar privilegiado de protagonismo sociocultural, ou seja, do exercício da autonomia das pessoas e grupos na construção de redes vitais, do empoderamento ecopolítico, da produção de sentidos para a cidadania cultural. Aqui é importante entender com um olhar mais abrangente a questão do empoderamento, não apenas na sua dimensão mais restrita que diz respeito à decisão dos grupos, à participação social e política, mas na apropriação e criação de vidas significativas e com sentido no interior da coletividade e da cidade. O sentido da cidadania não se qualifica inteiramente se não nos constituirmos em pessoas mais evoluídas nos seus significados de existência, na sua relação consigo e com todos os outros. A construção da cidadania cultural a partir de referenciais da vida no território é vital, aqui entendida como o direito a participar dos processos criativos, acesso e fruição de significados, saberes-experiências já dados e direito de decidir sobre os rumos do fazer cultural; o direito à informação, às diversidades e identidades e à singularidade e, finalmente, o direito às poéticas (fabular, sonhar, utopizar, enfim, construir realidades do mundo imaginal e poético). Creio que, a partir daí, o que se chama de modo empobrecedor de “protagonismo”, cresce em seus significados para um lugar mais abrangente de possibilidades, além da política, como a experiência humana vivencial; a experimentação do novo, diálogos interculturais ricos com a ancestralidade e a invenção, a economia e a política, e porque não dizer também, de visões universalizantes, além do localismo ingênuo, uma visão de Gaia a partir da Aldeia e da elaboração de um imaginário multicultural componente da experiência humana de todos os tempos. A partir dessas considerações podemos criar uma outra visão mais totalizante do local.

Sustentabilidade culturalAo tratarmos da questão cultural na atualidade precisamos afirmar que esta não pode nem deve mais ser pensada de forma isolada, pois é necessária uma visão de totalidade sobre o território e a sociedade. Embora a equação “cultura = arte” esteja ultrapassada no debate cultural, e o Plano Nacional de Cultura e o Sistema Nacional de Cultura anunciem outras visões, diálogos e contextos, a maior parte dos envolvidos ainda manifesta uma percepção segmentada do acontecimento cultural. Desde meados dos anos 1990 contribuímos, por meio do Fórum Intermunicipal de Cultura (FIC) e do Instituto Pólis, para anunciar uma compreensão mais larga do fenômeno cultural.

Um dos documentos do FIC afirmava (Cartas da Cultura, 2003, p.20): “cultura é também qualidade de vida e qualidade de ser. O desenvolvimento não pode ser promovido sem cidadania cultural. Uma sociedade sustentável promove a diversidade cultural, o pluralismo e a solidariedade. Portanto, defendemos os seguintes pressupostos: 1. A cidadania cultural como um direito à vida em suas mais diversas manifestações e base para o exercício da cidadania plena; 2. O direito à liberdade de criação cultural como direito inalienável dos seres humanos, sem o qual jamais se chegará à liberdade; 3. O direito à participação da sociedade nos processos de decisão cultural; 4. O direito à informação como fundamento da democratização da cultura; 5. O respeito às expressões da diversidade como fundamento de uma verdadeira democracia cultural.”

Essas declarações, que estiveram amplamente presentes no debate público, embora ainda limitadas para as exigências atuais, já anunciam com todas as letras um caminho para uma conversa mais ampla da cultura: modos de vida, direitos culturais, processos participativos e governança, papel dos movimentos culturais da sociedade civil, informação, democratização da cultura, diversidade cultural e democracia cultural. O sociólogo Agusti Nicolau desenvolve em seu livro A Globalização Intercultural (Coll, 2006), uma interessante metáfora sobre a cultura fazendo analogia com uma árvore para mostrar os três níveis estruturais: os valores e as crenças, da ordem dos mythos (as raízes); as instituições, formais ou informais, que possibilitam aos valores assumirem concretude e visibilidade (o tronco); e as práticas concretas e cotidianas em todos os âmbitos (os galhos e as folhas). Seriam formadoras da cultura as práticas econômicas, políticas, sociais, ambientais etc.

Certamente estamos falando de uma visão mais ampla de cultura, uma cultura da sustentabilidade, que dá conta de dimensões maiores que arte e que trata da cultura como um todo, como um bem comum da localidade, do país, do planeta; de um paradigma de saudabilidade, de saúde para o planeta – social, mental e ambiental. E também estamos falando de uma integração de conhecimentos e ações que justamente dão essa conotação de sustentabilidade e não apenas de uma visão ambientalista de mundo, sem negá-la, é lógico. Quando falamos de sustentabilidade, estamos falando de bem comum. Não há cultura da sustentabilidade sem a preservação e o desenvolvimento do Bem Comum. E os bens comuns são patrimônios da humanidade, valores partilhados, imaginários, bens necessários para a vida, criações coletivas. Desta forma a cidade deve ser um bem comum – a água, a terra, a alimentação, os patrimônios culturais materiais e imateriais fazem parte de uma cultura urbana sustentável.



Sustentabilidade e interculturalidade
A localidade possibilita, pela proximidade entre seus atores, a possibilidade de criação de uma cultura conversacional, base da construção da cultura local e de alternativas ao desenvolvimento centrado na economia. O diálogo entre organizações, redes, fóruns, parcerias público-privado, rural-urbano em articulação nos três níveis local-estadual-federal, pode implementar um processo criativo de aproximação, diálogo e sínteses de modos de vida, ações e políticas públicas relevantes para o desenvolvimento da localidade. É sempre necessário reafirmar essa verdade presente no diálogo intercultural, pois muitos movimentos e, particularmente governos, ainda se fecham em pequenas políticas e não acreditam na capacidade dialógica para a construção de ações, políticas, e da esfera pública. O local é um lugar de oportunidade do encontro das diferenças; que deveria ser o fundo comum de todo o trabalho cultural local: a criação de uma verdadeira cultura da convivência a partir das diferenças explicitadas no diálogo e nas ações públicas.

Com essas considerações estamos demonstrando que a nossa meta é construir o desenvolvimento humano e a qualidade de vida integral: talvez seja isto que pretendemos – criar na localidade não apenas processos de uma cidadania mais ativa e de uma governança democrática. O que está em questão, em última análise, é a construção civilizatória a partir do local; não a imagem empobrecida da cidade global, nem aquela que cria parâmetros competitivos para situar-se na ordem da desordem global, mas a que prepara outra noção de local com constitutivos de pertencimento e identidades, que diferencia um lugar de outro pela forma como exerce modos de vida culturalmente saudáveis. Como sugere o escritor moçambicano Mia Couto trata-se de um lugar “lugarizado”. Em um debate no Instituto Pólis, com a presença do sociólogo Chico de Oliveira, eu trazia à baila a afirmativa de Milton Santos sobre a essência do local e a aparência do global e Chico chamava a atenção para os limites dessa assertiva. E para argumentar, ele citava o poder das decisões globais e das corporações que decidem a vida da localidade em outro plano não tão localizado, embora proponha que o desenvolvimento local poderia criar lócus interativo entre cidadãos a partir da iniciativa e autonomia. Sem subestimar as virtualidades do local, o importante a saber é que entre o local e o global, como queria Guimarães Rosa em relação ao real “que não está no início nem no fim, mas se dispõe para a gente no meio da travessia” (Rosa, 2005) há um importante território real e imaginário que acontece sem desconhecer as grandes variáveis macroeconômicas e macrossociais e de caráter global, mas que também exaltam as iniciativas da localidade .

Os processos interculturais sustentáveis devem ir além da noção política que facilita a construção de poderes locais, – naturalmente importante quando se trata de apropriação de um determinado território – devem abraçar também uma ecologia interior, uma noção de desenvolvimento pessoal, valores de generosidade e acolhimento nas relações, que geram atitudes e mudanças individuais e coletivas; a participação que dialoga a todo o momento com as várias dimensões da vida – a democracia, os processos educativos, a paz, o equilíbrio ambiental, as várias poéticas da existência; e políticas públicas, diferenciadas das estatais, mas que fortaleçam atores, se capilarizem pelo território, com participação ativa do cidadão comum e não apenas de ativistas públicos.

Às vezes temos a impressão, outras a certeza, de que as políticas remendam situações históricas, mas não superam ou mudam paradigmas do fazer público. Assim, em vez de inovarmos, corremos sempre atrás dos prejuízos ou da compensação para uma vida em colapso permanente.

Não há dúvida de que nos anos 2000 a participação e as políticas públicas deverão dialogar com a sustentabilidade e não apenas com a democracia e processos de empoderamento local ou nacional. A referência de contexto necessita estar dentro de um cenário maior, para não se descolar dos grandes problemas sociais e civilizatórios. E aí a cultura pode ganhar contornos sustentáveis, pois há uma cultura insustentável presente em nossos estilos de vida marcados por um individualismo exacerbado e por um culto da economia como fator de sucesso, fundamento do desenvolvimento material sem qualquer transcendência.



ReferênciasCartas da Cultura 1996 - 2003. São Paulo, Instituto Pólis, 2003. 32 p. (Cadernos Pólis, 7).
Coll, Agusti Nicolau. A globalização intercultural. São Paulo, Pólis/Fondation Charles-Léopold Mayer, 2006.
Fonteles, Bené. Antes arte do que tarde. (Mimeo). São Paulo, 2001.
Rosa, João Guimarães. Grande Sertão - Veredas. Nova Fronteira, 2005.
Sams, Jamie. As Cartas do Caminho Sagrado. Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1990.
Santos, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro, Record, 2000.


Hamilton Faria é poeta, autor de Haikuazes, Encântaros, Súbitos encantos para São Pedra e Espanto, entre outros. É coordenador da área de Cultura do Instituto Pólis. Este artigo foi publicado na edição 33 da Le Monde Diplomatique Brasil.

Extraido de Akatu: Cultura e sustentabilidade
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