17 março 2011

Do mundo do design ao design do mundo

Da Futurista Rosa Alegria
O título desse artigo é uma inevitável referência ao designer canadense Bruce Mau, criador do conceito Massive Change, que me restrinjo a traduzir como “Mudança Maciça”. Mas como as palavras muitas vezes reduzem o verdadeiro e pleno sentido do significado, vou tentar traduzi-lo no decorrer deste artigo e compartilhar com os leitores o que isso representa para a nossa mudança positiva na relação com o ambiente que nos envolve.


Estive com Bruce Mau em agosto, numa conversa entre amigos, e aquela figura corpulenta e aparentemente combativa, que já conhecia pela mídia, me surpreendeu com tanta doçura e sensibilidade a cada momento em que manifestava um entusiasmo quase juvenil, como se fosse um adolescente descobrindo um mundo de possibilidades pela vida que tem adiante.

Bruce Mau integra a categoria de designers, que trabalham com a “síntese entre artista, inventor, mecânico, economista objetivo e estrategista evolucionário”, atributos interdisciplinares preconizado por ele.

Fundador da Bruce Mau Design Inc, com sede em Toronto, no Canadá, criou o conceito visual de vários projetos internacionais, incluindo a Tate Modern, em Londres, e o Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles, Bruce Mau expandiu seu pensamento pelo sucesso do livro Massive Change (ainda não traduzido em português), que traz o próprio conceito como orientador prático para agentes de mudança.

Normalmente concebemos o design no universo do tangível materializado. No entanto, o poder do design para transformar e impactar cada aspecto da vida diária está adquirindo consciência pública. Já não mais apenas associado com objetos e aparências, o design é cada vez mais entendido num sentido muito mais amplo, como por exemplo, a capacidade humana de planejar e produzir os resultados desejados.

Criado para mapear a nova capacidade transformadora do design em nível planetário, Massive Change explora o paradigma da mudança de eventos, ideias e pessoas, investigando as capacidades e dilemas éticos do design na fabricação, transporte, urbanismo, guerra, saúde, vida, energia, mercados, materiais, a imagem e na informação.

A ideia do Massive Change nasceu de uma exposição realizada em 2002, em Toronto, e que veio propor o design como metodologia facilitadora da criação de soluções para as questões mais importantes do mundo, envolvendo o âmbito social, cultural, tecnológico e político. Este ambicioso esforço veio para tentar traçar a complexidade do nosso mundo, crescentemente interligado e por que não dizer, desenhado.

Bruce Mau dedicou-se a avaliar as capacidades e as limitações do esforço humano coletivo para mudar o mundo para melhor, trazendo-os constantemente a uma luz crítica. A exposição que marcou época no mundo do design foi estruturada em onze instalações multimídia tematizadas em: urbanização, informação, transporte, energia, imagens, mercados, materiais, manufatura, saúde, militarismo, riqueza e política.

Os displays, expostos durante três meses na cidade canadense de Toronto, incluíam uma galinha depenada, geneticamente modificada para regiões tropicais, e um compartimento feito de material descartável, incluindo fitas VHS, teclados de computadores, bonecas, entre outros lixos da sociedade de consumo.

Como um crítico do design tradicional, Bruce Mau quis expor aquilo que chama da Teoria da Grande Unificação, que junta “disciplinas disparatadas”. Para ele, o design cada vez mais é compreendido como a capacidade humana de planejar e produzir desfechos desejáveis – “revelou-se uma das forças mais potentes do mundo”, diz.

A proposta da Mudança Maciça, desculpem a petulante tradução, diz respeito à maneira como as tecnologias, que evoluem rapidamente, criaram o potencial para que o design possa influenciar mudanças em escala global. O movimento promove ainda o pensamento crítico colaborativo em plataformas multimídia integrando redes sociais, blogs, eventos, livros, programa de rádio, fóruns online.

“Percebemos que o projeto Massive Change não tem a ver com o mundo
do design.Tem a ver com o design do mundo!”
Bruce Mau

Mas esse artigo não é para falar tanto de Bruce Mau. Quero apenas colocá-lo como referência expoente de uma revolução que está acontecendo nas bases criativas da sociedade, não somente numa dimensão global, mas também e principalmente, nos redutos hiperlocais, remotos e ocultos desse mundo.
Comunidades, associações, escolas, organizações passam a incorporar o design para solucionar problemas diários e criar soluções práticas para tornar a vida melhor. No mundo dos especialistas e gênios da inovação, mentes criativas já estão saindo da própria caixa inventiva que antes os confinava no limitado mundo narcísico do próprio talento e aos poucos vai se abrindo e fazendo-os voar pelo mundo de múltiplas e infinitas possibilidades.

Não somente os designers, mas todos nós, seres que somos do “pensar e fazer”, estamos sendo desafiados em nossa própria inteligência, frente às ameaças e crises simultâneas que nos cercam: as mudanças climáticas mais do que alarmantes, a crise do sistema econômico que está dando seus últimos suspiros, a escassez dos recursos naturais (fauna, flora, ar puro, água e alimentos) em relação ao crescimento populacional, ou melhor dizendo, a falta de distribuição equitativa entre todos os que habitam o Planeta, e a busca acelerada por soluções alternativas de uma nova matriz energética, mais limpa, para que o mundo continue girando em seu sistema gerador de bens e serviços sem continuar a degradar o meio ambiente.


O design revelado numa outra versão da palavra

A palavra design deriva do latim designare, e há muito tempo foi adaptada para o inglês. Ainda continua imperando como um anglicismo em nossa língua pátria. Na concepção latina da palavra, designare tem dois significados: o primeiro: marcar, traçar, notar; no sentido artesanal ou manual; o segundo significado: planejar, imaginar, no sentido intelectual ou mental.

Desde a Revolução Industrial até o final do século 20, predominava o primeiro significado, aquele que relaciona o design com o artefato. Agora, às margens dos novos e turbulentos tempos, que requerem ação e criatividade em grande escala, estamos assistindo ao florescer do segundo significado, que define o design como o processo pelo qual passa a criação do artefato.

A experiência fala mais alto do que o próprio resultado de uma criação, porque é nela que existe o espaço vazio da transformação dos modelos mentais, e da conexão do criador com os mais nobres propósitos daquilo que cria e que lhe dão sentido maior ao talento do qual é portador.

Recorrendo à História, o significado tradicional do design tem sido predominantemente relacionado aos aspectos físicos, que se relacionam aos objetos para trazer soluções aos usuários. Do ponto de vista do mercado, os atributos que têm influenciado os consumidores em suas decisões de compra ainda restringem-se ao que é bonito, prático, funcional, moderno, durável e útil. Do ponto de vista dos produtores, a forma tem um papel importante como construtora de imagem e como percepção de modernidade e qualidade.

Exemplos de objetivos que até então incluem-se nessa concepção que imperou no século passado, para que o sistema econômico no exercício da inovação aumentasse o seu nível de competitividade, são os eletrodomésticos, roupas, máquinas de produção, imagens, embalagens, interfaces digitais de software, elementos gráficos em peças de promoção, propaganda, em versões impressas e digitais, entre outros.

O novo século, marcado por desafios socioambientais de grande inflexão, requer que a indústria ressignifique o design como facilitador de processos de inovação sustentável, ou seja, amplie sua função de oferecer soluções práticas para facilitar a vida dos consumidores, e alcançar propósitos mais relevantes, que envolvam soluções regenerativas, restauradoras, para proteger e preservar os sistemas vivos, incluindo a nossa própria espécie.

O design para a sustentabilidade da vida

Os avanços gerados pela industrialização e tecnologias inovadoras permitiram métodos de trabalho e um padrão de vida jamais alcançado por qualquer outra civilização. Entretanto, estes avanços também são responsáveis por muitas das ameaças ecológicas e tensões sociais que sugerem, visivelmente, que a atividade humana foi além do que seria razoável. Para reverter este quadro de impactos negativos, precisamos de soluções inovadoras que não são tão simples de ser geradas e nem de fácil acesso.

A natureza complexa e multidimensional da situação atual exige, mais do que nunca, cooperação. Particularmente, a colaboração entre universidade e indústria. Investimentos e esforços significativos em pesquisa e desenvolvimento precisam ser direcionados a projetos que visem encontrar respostas às questões centrais em um ritmo acelerado e crescente. É necessário desafiar empresas, sociedade civil e a eficácia das políticas públicas para a mobilização.

Se isto não acontecer, estarão sob risco a saudável coexistência das espécies e o compartilhamento e usufruto comum das principais conquistas desta civilização, que tornaram possível o avanço da ciência e inovação tecnológica. A questão central amplia e integra as funções do artefato e do processo, direcionando-os à sustentabilidade da vida (dos humanos, espécies vivas e ecossistemas).

O termo design sustentável surgiu com o advento do movimento da sustentabilidade para preservar o meio ambiente, mitigando os problemas da extração da matéria-prima e da energia necessárias para sua fabricação. Esse “novo design”, no entanto, não se restringe aos aspectos ambientais, mas alcança a condição de vida dos consumidores que, sob a ótica da justiça social e do bem estar, devem ter acesso a produtos acessíveis economicamente e seguros à sua saúde, cumprindo uma função de ordem planetária e humanista: trazer o bem-estar e a satisfação a quem os utiliza. Nesse sentido evolutivo, o design deve projetar qualquer tipo de solução sob a perspectiva do futuro, como um princípio norteador de criatividade no presente, pois as necessidades que o geraram devem considerar todos os impactos daquilo que se propõe a ser solução, hoje e amanhã.

A nova lógica industrial dos 3Rs (Reduzir, Reutilizar e Reciclar) deve estar presente nos produtos desenvolvidos dentro da visão do design sustentável. Esses produtos, quando em sua fase de concepção, devem ser elaborados já para possíveis reutilizações para sua função principal. Com uma maior durabilidade que evite baixa utilização e uso de materiais que permitam a reciclagem.

A espaçonave Terra: lições da história e de um profeta da tecnologia

Há mais de setenta anos, na década de 30, Buckminster Fuller, um inventor norte-americano de vanguarda, falecido nos anos 80, já havia alcançado um nível elevado de consciência oferecendo ao mundo inovações sustentáveis. Buck, como era normalmente conhecido, tinha uma extraordinária visão de futuro e queria melhorar a condição de vida da humanidade preservando o meio ambiente através da arquitetura e do design.

Ele argumentava que os recursos limitados da Terra poderiam ser superados pelas invenções que forneceriam ainda maiores opções e escolhas, embora usando cada vez menos quantidades de materiais. Ele preconizou que a “evolução é o resultado do desejo natural de cada espécie de viver além dos seus recursos”.
Buck foi um dos primeiros inventores a propagar uma visão sistêmica da energia, da eficiência, da arquitetura, do design e da engenharia. Também como arquiteto, Buckminster Fuller buscou conciliar a nova era da industrialização e da produção em massa com a arquitetura e o design, produzindo obras que fossem de acordo com os rumos que a sociedade de sua época tomava, tendo, além disso, a preocupação em solucionar problemas como o da habitação e o do racionamento de recursos da Terra.

Fruto dessa criatividade consciente, Buck concebeu várias inovações no decorrer dos anos 30 e 40. Uma delas merece especial explanação, em virtude de estarmos vivendo um momento de grande transformação no setor automotivo. Em 1933, cerca de 80 anos atrás, ele desenvolveu o Dymaxion Car, um automóvel longo, com 6 metros de extensão, com três rodas e que pretendia transportar até onze passageiros e ser econômico, utilizando quantidade pequena de combustível e de matéria-prima na produção, indo de acordo com seu conceito de “mais com menos”.

Escreveu 28 livros, um deles conhecido como “O Manual de Operação da Espaçonave Terra”, no qual ele trouxe uma metáfora utilizada até hoje pelos grandes pensadores e ambientalistas, que simboliza a coletividade humana dentro de um mesmo espaço e que deve ter essa consciência de unidade, porque estamos todos, ricos, pobres, negros, amarelos, brancos, islâmicos, cristãos, budistas, e toda a diversidade da civilização, numa mesma condição, como co-tripulantes de uma mesma espaçonave, co-habitantes de um mesmo planeta Terra, que dentro de toda a imensidão do cosmos, não é um planeta especialmente grande; é apenas mais um. Um ponto azul no universo. E dentro desse “co-habitar”, tripulantes que somos dessa espaçonave, devemos nos ajudar uns aos outros.


“O fato mais importante a respeito da espaçonave Terra é que ela
não vem com manual de instruções.”
Buckminster Fuller (Manual da Espaçonave Terra), década de 30

Laboratórios colaborativos e comunidades criativas desenhando os seus sonhos

Um outro brilhante visionário do design sustentável é o italiano Ezio Manzini, diretor da unidade de pesquisa em Design e Inovação para a Sustentabilidade (DIS), do Instituto Politécnico de Milão. Tem espalhado por vários centros do mundo o processo de design por meio de comunidades criativas. Buscando inspiração em iniciativas espontâneas de grupos que ele denomina de “comunidades criativas”, ele facilita processos de trabalhos colaborativos, para resolver problemas do dia a dia de cada cidadão.

Ezio Manzini sugere um novo caminho para o design sustentável do século 21: o de facilitar essas atividades colaborativas, através de um novo contexto social e econômico, distrubuindo unidades pelo mundo, para preservar e valorizar suas características locais. Mesmo sendo locais, não deixam de se comunicar com o resto do mundo, numa eficiente rede de troca de informações. Ainda que hoje sejam iniciativas alternativas e isoladas, são também focos de vida sustentável que, segundo Manzini, chegam, nos próximos anos, ao mainstream.

“Somente experiências colaborativas levariam a uma redução significativa
do consumo e estaria aí o futuro do design.”
Ezio Manzini

Marc Giget, reconhecido especialista europeu em inovação, argumenta que estamos na iminência de uma nova Renascença. O mundo dispõe hoje de grandes instituições de ensino e pesquisa, de desenvolvimento tecnológico de alto nível, de incentivos e mecanismos financeiros e novos instrumentos sendo criados todos os dias.

Sob esta ótica, o que é necessário, começando com a ideia de um desenvolvimento verdadeiramente sustentável, é elaborar a síntese criativa de todas as possibilidades e recursos. Ou seja, novos acordos entre as instituições e atores industriais, tendo em mente os pressupostos da sustentabilidade, sobre os quais as novas “catedrais” do nosso tempo serão construídas.

Agora que nós podemos fazer qualquer coisa… o que nós vamos fazer?

Essa foi a pergunta que mobilizou várias plateias na última visita de Bruce Mau ao Brasil, que passou por São Paulo, a convite do São Paulo Fashion Week em parceria com a plataforma multimídia Crie Futuros. E essa pergunta, propõe ele, devemos nos fazer a cada dia, já que temos sido capazes de criar inovações extraordinárias e ao mesmo tempo, essa curva exponencial das grandes inovações confunde-se com a curva exponencial da destruição dos sistemas sócio-ambientais.

Rose Muraro, mais do que o ícone do feminismo nacional, reconhecida macro historiadora, física e pensadora futurista, em seu mais recente livro publicado pela Editora Vozes, “As inovações tecnológicas e o futuro da humanidade”, expõe com brilhante capacidade de síntese os dilemas e paradoxos das tecnologias. Nessa obra extraordinária, Rose propõe que a tecnologia seja vivida de maneira solidária, para servir e criar a vida.


“Não há deuses poderosos que resistam à ação dos povos que redescobrirem a solidariedade.”
Rose Muraro

Diante de tantas possibilidades e das chances que temos de revelar à nossa própria espécie que somos realmente inteligentes, capazes de restaurar o que destruímos, por um colapso em nossa consciência, de que somos interdependentes e de que precisamos de ar para respirar, água para beber e deixar o mundo habitável para os que vierem depois de nós, acredito que é chegado o momento de uma nova proposta civilizatória: a da síntese criativa entre o local e o global, uma espécie de aventura glocalizada. Ao embarcar nessa viagem, todos dentro da Espaçonave Terra, seres supostamente inteligentes, iremos dar a resposta derradeira ao chamado de um novo tempo.

Revelaremos, numa acelerada mudança de atitudes e padrões mentais, que somos ainda necessários para restaurar os danos que nós mesmos provocamos, seremos capazes de recriar a vida que tanto menosprezamos, e desenvolver o design de um viver mais saudável, sustentável e humano.


Artigo originalmente publicado na Revista ESPM.

Rosa Alegria é futurista, pesquisadora de tendências, comunicóloga e ativista de midia.

Extraido de: Mercado Ético
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