19 dezembro 2010

'Ciência no setor privado ainda frustra'

A ciência brasileira avançou nos últimos anos, mas ainda enfrenta problemas sérios como a participação pouco expressiva do setor privado e a falta de articulação entre as esferas estadual e federal.

 O diagnóstico é de Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em entrevista ao Estado.


- Para ministro, impacto da pesquisa deveria ser maior na indústria

A Unesco, órgão das Nações Unidas para a cultura e educação, divulgou há algumas semanas um relatório sobre o panorama da ciência no mundo. Brito Cruz ajudou a escrever o quinto capítulo, dedicado ao Brasil.

Como você vê a ciência no País?
O relatório da Unesco aponta avanços importantes. Houve um aumento de 28% no gasto interno bruto em pesquisa entre 2000 e 2008. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) puderam atuar fortemente não só no financiamento, mas também na implementação de uma política de ciência e tecnologia. Talvez o exemplo mais concreto dessa política seja a criação dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), que estabeleceu 122 redes de pesquisa.

Quais são os desafios?
Há três principais: intensificar as atividades de pesquisa nas empresas, disseminar a ciência para outras regiões - hoje, muito concentrada no Sudeste - e criar instituições acadêmicas que sejam ranqueadas entre as cem melhores do mundo.

O governo é o grande financiador da ciência. Qual é o impacto para o País?
Graças ao investimento público, criou-se um sistema competitivo de pesquisa acadêmica. Mas têm sido frustrantes nossos resultados na criação de um sistema empresarial de pesquisa. Há três grandes funções que constituem um sistema nacional de ciência: formação de recursos humanos, pesquisa básica e pesquisa aplicada. O investimento público costuma estar associado às duas primeiras funções.
O setor privado investe na terceira, que produz inovação tecnológica. Para o dispêndio em pesquisa no Brasil chegar a 1,5% do PIB, a participação das empresas deveria chegar a 0,8%. Atualmente é de apenas 0,45%.
Nesse processo, elementos da vida econômica do País são mais decisivos que o investimento público direto. O valor atual do dólar, por exemplo, desestimula a inserção das empresas no mercado mundial. A taxa de juros ainda é uma das mais altas do mundo e encarece o investimento em pesquisa. Por fim, a situação econômica dos últimos 50 anos fez com que as empresas não criassem a cultura de valorizar a inovação.

Por que o Brasil não avança no número de patentes internacionais?
Em economias saudáveis, a maior parte das patentes é feita pela indústria - cerca de 95%. Nossa fraqueza vem da limitação do esforço empresarial em pesquisa, além da pouca ousadia. No relatório, comparamos quantas patentes são obtidas por cada grupo de mil cientistas no Brasil, na Coreia, na Espanha e em outros países. No Brasil, é 1,8. Na Espanha, 7. Na Coreia do Sul, 45. Quando você compra uma TV de plasma, ela não é brasileira. Algum coreano há 20 anos fez pesquisa sobre aquela tela, sobre a eficiência do aparelho... O número de patentes brasileiras registradas nos EUA está estagnado desde 2003. Em 2004, registramos 106. A China registrou 404. Em 2009, nosso número caiu para 103. A China saltou para 1.655. No Brasil, falta pesquisa e ousadia na indústria.

Em Brasília, você disse que o País realiza "um voo cego". Por quê?
Há poucas estatísticas sobre desenvolvimento científico no País. Ao lançar a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (Pitce), em 2003, e a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), em 2008, o governo disse que queria aumentar o esforço de pesquisa das empresas. Se é um objetivo, você deve medir a cada seis meses para saber se a política científica está funcionando. Mas os números só surgiram em 2010, referentes a 2008, e ainda apontando uma queda no número de pesquisadores na iniciativa privada. Estima-se que, em 2005, havia 50 mil cientistas nas empresas. Em 2008, 45 mil. Temos de acompanhar de forma mais próxima. Em outros países, os gestores sabem quantas empresas foram criadas no último semestre. Se você demora três ou quatro anos para ter o dado, a efetividade do sistema cai muito.

Como você vê a articulação entre as esferas estadual e federal?
Há algum progresso. Certos programas são cofinanciados por entes estaduais e federais. Mas a participação dos Estados na definição de estratégias é muito menor que a financeira. É ruim uma colaboração em que um entra com a ideia e os outros só pagam. Não houve até agora muitas oportunidades para os entes estaduais criarem proposições pelas quais Brasília se interesse. Em São Paulo, por exemplo, propusemos ao Ministério de Ciência e Tecnologia a instalação de um centro de pesquisa sobre bioenergia. Discutimos isso por quase dois anos. O ministério não aceitou e construiu um centro sozinho. Agora teremos dois centros fazendo a mesma coisa: um programa da Fapesp e outro do ministério.

QUEM É
Carlos Henrique de Brito Cruz

Professor do Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é diretor científico da Fapesp desde 2005. Foi reitor da Unicamp de 2002 a 2005 e presidente da Fapesp de 1996 a 2002.

Extraido de Estadão
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101219/not_imp655571,0.php
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